uma bela morte
há poucos meses minha sala ganhou uma mesa de jantar baixa, sem cadeiras, apoiada sobre dois tatames de 90 x 200 cm, onde faço minhas refeições pela manhã e sobretudo à noite. um tatame padrão equivale a 1,62 metro quadrado. o descobri enquanto lia Patriotismo, conto de Yukio Mishima: em um quarto de oito tatames, um tenente da Guarda Imperial do Japão e sua esposa cometem o suicídio ritual chamado seppuku.
figura popular no Japão pós-guerra, Mishima (1925-1970) foi precursor ao trazer o homoerotismo para a cultura nacional, ao mesmo tempo em que escreveu várias histórias e ensaios políticos para causas nacionalistas no Japão e se engajou apaixonadamente na política de extrema direita.1 para Keith Vincent, Mishima Yukio é “o homofascista favorito de todos”. Morte em pleno verão, de 1953, foi publicado pela Companhia das Letras no Brasil no ano passado, sendo a primeira tradução em português do texto original, feita diretamente do japonês. o livro reúne dez contos que exploram temas centrais da literatura de Mishima, como a morte, o amor e o desejo. a tradução é de Andrei Cunha.
Patriotismo (Yūkoku, em japonês), sexto conto do livro, abre a última década de trabalho criativo do autor, no qual ele redescobre o Japão tradicional em uma época em que especialmente os jovens tendiam a rejeitá-lo. os personagens principais são o belo e virtuoso tenente Takeyama e sua jovem esposa Reiko. após uma tentativa de golpe frustrada encabeçada por oficiais de direita em 26 de fevereiro de 1936, os rebeldes são executados. Takeyama, inicialmente um participante do motim, foi excluído por seus companheiros no último minuto devido ao seu casamento prematuro. no entanto, ele não deseja sobreviver a seus irmãos de armas e decide pelo suicídio, acompanhado em seguida pela sua bela e igualmente virtuosa esposa. o seppuku torna-se shinjū, isto é, um duplo suicídio, famoso tema do teatro kabuki. o tenente morre por lealdade a seus companheiros, os quais ele acredita que reencontrará na morte, sua esposa morre por lealdade ao marido e ambos por lealdade ao imperador, para quem rezam antes da morte no altar da casa. heróis românticos, os dois acabam morrendo em nome da mesma ideia, embora suas motivações pareçam de alguma forma diferentes.
o texto apresenta uma descrição bastante gráfica, sensual e melosa de uma pessoa cometendo seppuku. é meloso e ao mesmo tempo estético e sóbrio. uma descrição melosa de alguém abrindo a sua barriga com uma espada e espirrando as vísceras para fora soa como clickbait literário, mas elas têm o poder de matizar os aspectos mais desagradáveis da morte. as entranhas do tenente jorram alegremente de sua barriga e têm uma aparência saudável; a roupa branca de sua esposa é progressivamente tingida com o vermelho do sangue do marido, primeiro com “uma mancha que pousa como um pássaro em seu quimono”.
Mishima argumenta que sua ideia principal no texto era “explorar como o Eros japonês se fundiria com a morte e, em circunstâncias politicamente difíceis, qual seria a forma mais elevada de Eros para a justiça ou o mártir." não por acaso, Patriotismo narra um instante ritualístico de preparação fúnebre que envolve a organização da casa, o saquê servido quente, uma intensa relação sexual e a escolha de vestimentas honrosas que viabilizassem o ato de tirar a própria vida com a estofa necessária.2
com o sexo e a morte que se segue, o tenente une os dois mundos, mas separadamente; no sexo, ele completa a união com Reiko; na morte, ele se torna uma figura heroica e se aproxima do ideal imperial, ainda que seja separado de Reiko. a morte dos amantes inverte a ordem tradicional, pois Reiko vê o tenente morrer. ele, por sua vez, se regozija com a beleza e a pureza de Reiko e com a noção de que a última coisa que ele verá é a beleza dela, e que ela será aquela que o verá morrer.
Ele não saberia explicar, mas era como se, no estado psíquico em que se encontrava, ele pudesse obter um perdão que ninguém mais conseguiria. Ele teve uma visão de que sua bela mulher, vestida de branco como uma noiva, materializava em si a tão amada figura do Imperador, o Estado japonês e o estandarte do Exército, pelos quais ele estava disposto a dar a vida. Essas presenças o observaram para sempre, de longe ou de perto, com um olhar límpido e protetor, como o de sua mulher ali diante dele. (p. 158)
se, por um lado, atestamos o senso de dever do tenente manifestado de forma um tanto egocêntrica – o mundo exterior não é o lugar adequado para heróis perfeitos, mas pode-se escapar do tempo histórico pelo suicídio –, observamos o amor (a devoção?) da esposa primeiro a ele, e depois ao Imperador. eles são um casal ideal, mas, embora não haja proibição da união, o amor do militar pelo imperador e suas próprias convicções significam que o amor (pelo menos o do casal) se torna colateral e o suicídio é a única opção. o amor de Takeyama pelo imperador e pela nação é ecoado pela lealdade de Reiko ao marido e ao seu papel de esposa militar. na morte, ambos estão cumprindo seu dever, ele como militar e ela como esposa.3
assim, a morte é construída como um ato ideal de beleza que é ao mesmo tempo heroico e fracassado. embora representada como um ato individual de sacrifício capaz de unir as identidades divididas dos personagens, por meio das descrições do suicídio e do relacionamento do casal, a noção de morte como o caminho para a união é rompida. a bela morte, então, é revelada como uma morte não tão bela.
as descrições da espada rasgando o abdômen, do sangue que jorra, do quimono tingido de vermelho são lindas, mas racham, pois se tornam excessivas, uma elaboração exagerada da morte que revela a distância entre os amantes e, sobretudo, o caráter insignificante dos suicidas, cuja morte não tem impacto monumental além do espaço fechado da casa (em Patriotismo, não é a morte do casal que os outros admiram, mas a memória de sua vida).
o que resta, então? resta a possibilidade de, por meio da morte, ser outro. a única maneira de viver outra vida além da separação implícita nos desejos conflitantes dos casais, de ser livre ainda que cumprindo um dever, é por meio da morte. é por meio da morte que esses desejos conflitantes são reconciliados e que se pode ter tanto a união do marido com seu ideal de heroísmo e do casal entre si. o tema do duplo suicídio é o que nos permite explorar a inquietação do corpo amoroso sob a pressão de um amor que não parece sincero ou devotado, mas é pregado como tal. assim, no teatro do duplo suicídio de Mishima, os casais são e não são amantes, e morrem e não morrem por amor.
Mingus sobre os tatames
efeito Mishima: os estudos queer no Japão, em seus estágios iniciais, tiveram que analisar a conexão entre a política nacionalista e a homossexualidade.
esse movimento em direção à estetização da morte, que, apesar de sua violência e da descrição detalhada do sangue, do vômito e da evisceração autoinfligida do tenente resultante do ato de seppuku, é mostrada de forma heróica e visualmente agradável, reflete a expressão de Mishima para o seu pensamento de extrema-direita e lealdade pré-guerra ao imperador entre os oficiais militares japoneses: um exemplo de erotização e anestesia do fascismo.
quando menciona as coisas que ama, o tenente não menciona sua esposa como uma delas. o corpo de sua esposa é o que o leva a visualizar o que ele amou e pelo que ele morrerá, mas ela não faz parte dessas coisas (apenas por extensão, como parte da nação). por outro lado, sua esposa compartilha o papel de observadora de sua morte com esses objetos amados.



OMG! Eu adorei esse texto. Obrigada por escrevê-lo. Vou colocar o livro na lista de leituras. 🤍